É. É cedo que se começa. Como minha mãe sempre disse, Deus ajuda a quem sempre madruga. Não importa muito o que você sinta, ou pense, ou não sinta, ou mesmo não pense. Na verdade vejo todos os dias, pela minha janela, as luzes sonolentas da rua. Naquele andar embaçado dos que festejaram durante todo o silêncio da noite. Deixo meu ninho, com um ar de âncora insistente, lentamente içada. Celular, marujo celular. Olhos ainda cerrados, beijo meu amor com a ternura de sempre, desejo ímpar, de proteger e reafirmar nossa vida. Aroma intocável, indivisível. Átimo de segurança. Divino protetor. Sinto o frio do chão nos meus pés, que me sobe pelos ossos, estranho ao quente sentimento do pretérito imediato. Me desperta. Me engole. Me dilacera. Enxergo pela porta, logo em frente, o véu que cobre meu segundo sol. Dormindo de dorso. Com as mãozinhas justas, sob o rosto. Virada para o seu lado direito. Embolada nas cobertas e sugando seu biquinho, sonhando com sua inocência, seus passos dados e suas mirabolantes conversas. Ajeito suas cobertas e a recoloco em seu travesseiro, com muito cuidado para não acordá-la de seu descanso merecido, afinal, ser a “periquita” requer um enorme esforço diário! Olho mais uma vez para ela, agora bem mais confortável. Vejos suas brincadeiras, suas reações impressionantes, vejo o sorriso maroto, de quem sabe o que quer. Vejo a sensibilidade de seu canto, de seu olhar para os desenhos, da sua atenção para os detalhes. Beijo seu rosto à distância. Sopro olhares. Passo na porta de meu quarto, mais uma vez, e digo bem baixinho para meu amor, que as luzes da rua já estão para se apagar.Que o dia já vem. È hora de fazer café. É hora de fazer sopa. O calor do fogo me lembra a cama. Recebo um abraço gostoso, vindo misterioso pelas minhas costas: - O dia chegou! Olha ta chovendo! Ta frio? Ta calor ? A água do café ferve, dois copos, duas medidas. Sem açúcar. No ponto para não sobrar muito. No ponto. Simplesmente no ponto. A água quente escorre pelo coador, definindo sons constantes, batendo no fundo da garrafa, enchendo de música a manhã silenciosa. Enchendo de aroma o ar do nosso dia. Nesse momento fecho os olhos e sinto minha mãe, fazendo o café. Durante todos os dias da minha vida. Ouço as músicas da igreja no domingo, que ela cantava antes e depois do café. Lembro do meu pai sentado na poltrona da sala, balançando as pernas cruzadas. O melhor momento do dia, pois aquele era o meu pai, balançando as pernas na poltrona, com o cabelo penteado para trás, com “trim”. Barba feita. Apenas meu pai. Acordo com o fervor da sopa, rodopiando pedaços de legumes. Hora de bater a sopa. O liquidificador quebra a paz da manhã, como uma britadeira quebrando todos os sonhos. O fogo renova mais uma vez, dando a silhueta do sabor refogado ao pastoso manjar da deusa. Envase. Dois vidros, hermeticamente fechados. Um para o almoço. O outro para o jantar. Direto para geladeira. De lá trago as frutas e iogurte. Ah...não se esqueça do copo de água e o copo para o suco. Tudo montado cuidadosamente na merendeira. Quentes para um lado e frios para o outro. O iogurte não vai perder. Não se preocupe, a fraldinha enrolada no vidro da sopa faz o isolamento. É indescritível a sensação de fechar o zíper da merendeira. Certeza do provimento do meu segundo sol. Certeza do sabor, do carinho, das quantidades, da colher que não irá faltar, do babador para não sujar a roupa... A merendeira vai encontrar o resto do material, na mochila, com as roupas selecionadas para o dia pelas hábeis mãos do amor. Vou até a porta do banheiro, o cheiro do cabelo lavado me entorpece. Sua roupa está linda! Agora sou eu. Vou aproveitar que a periquita ainda não acordou...vou pôr a mesa. Depois do meu banho, exorcizando o resto da inoperância, vejo a mesa do café posta. Iluminada pelo pão, pelo leite e pela toalha manchada, tão linda para meus olhos. Troco a roupa. Casual ? Formal ? Hoje é sexta dá para usar jeans ? Clientes pela manhã ? Exemplo para os funcionários...conforto. Nesse momento ouço um chamado dos céus: Pappppaaaaaaiiii...
vejo minha luz de renovação chegar, de roupa trocada, carinha amassada e rostinho lavado. Pequenos passos. Pequenos mas constantes. Ela me abraça as pernas e me diz carinhosamente e baixinho: papai...A mamadeira é a próxima. Leite...Temos de comprar mais semidesnatado. O outro tem muita gordura. 250 ml está bom...Ah sim...Usei o resto da água do café para ferver a mamadeira de ontem...Mamar no colo com carinhos, ou mamar sozinha. No colo...Está quase na hora...Prefiro os carinhos. Macios, verdadeiros. Prefiro segurar meu tesouro, sentir suas células, minhas, próximas, num encontro sem precedentes na história do contato. Meu calor se confundindo com o seu...Seu olhar angariando todos os meus sentidos, me consumindo. Me distanciando de todos medos, angústias e dúvidas. Mamadeira quase em seu final e de repente...Papai...Vem um grito de alegria que contagia e motiva, com a energia de um furacão, transpondo todos os horizontes. Vamos tomar café ? Quer pão? Paaaaaaão...Mais uma vez nos enchendo de graça e orgulho...ela já fala muitas coisas. Ela já anda para todo lado. Ela faz piadinhas e morre de rir quando rimos com ela. Ela imita bichinhos. O mais novo de todos, a coruja...Uhhh...Uhhh...Uhhh...Uhhh, o olho bem arregalado a boquinha vermelha representando a figura do livro e da TV. São 7:00 horas!!Mamãe tem de ir trabalhar. Papai também. Vamos partir para o buraco negro do dia, aquele que se inicia na partida e se finda quando do feliz reencontro. Trabalho. Acho que ela está bem. Estará dormindo, sonhando comigo? Será que tomou tombo hoje? Já comeu? Será que a sopa ficou gostosa? A maçã estava mesmo madurinha? Trabalho. Ontem a Letícia falou assim, chamou fulano, imitou o tal bicho...Casos e mais casos, só para me enganar e me fingir em dono do tempo, para acelerar os espaços e perdoar meus pecados. Porque a distância? Porque o hiato de ausência? Não agüento mais...Almoço...E a Letícia, ta legal? Comeu bem? Já estão em casa...É claro que pergunto pelo meu amor...Com carinho, saudade, preocupação...Ah se eu pudesse poupa-la de todos os esforços...O fim do dia nunca é o mesmo. São inúmeros desfechos. Uns mais tarde, outros mais próximos do crepúsculo. Infelizmente a maioria depois dele. Mamãe já esteve em casa por toda a tarde. Meu sorriso é o de minha mãe e sua alegria me faz ter um brilho que cega. Estou em casa. Quando tarde, me faço sono e fico olhando de longe, beijando pelo ar o anjo maior. Minto. Me permito um pequeno beijo. Não posso perturbá-la. Quando cedo me faço todo ouvidos para chegada: PAPAI...sinto o abraço refrescante da chegada, o alívio pelo bem estar e o conforto da casa. Da mulher. Da filha. Hora do banho refrescante. Refrescante porque o banho de verdade já foi. Mamãe já deu. Agora é só refrescar. Agora é só água. Agora é mergulhar na paz da refrescância. Na essência de onde ela veio. Aliás, de onde todos viemos. Por isso tomar banho é tão bom. Por isso gosto tanto de ver a alegria dela quando toma banho. Banho é reencontro e calma, é trazer o bom passado vivido e o futuro à tona, aliviando o presente e espantando o que de ruim aconteceu. Agora é a mamadeira mais uma vez. É hora de ver seus cartoons preferidos, de conversar um pouco sobre o dia, mesmo que as palavras não sejam as mais claras do mundo. É hora de ver os assuntos sérios do dia serem debatidos e os comentários traçados. É hora de planejar o dia seguinte, ou minimizar os desencontros que a rotina nos causa. Um primeiro bocejo se anuncia. É hora de dormir. É hora de sonhar com flores, bichinhos e com os aprendizados do dia. Vamos colocar fralda noturna. Vamos preparar a caminha. Vamos preparar a mamadeira. Vamos dormir. Te pego no colo e te abraço como se não pudesse caminhar sem ter você por perto. Dou pequenos passos, lentos e ritmados, cantarolando preferencialmente a musiqueta do sapo, do Paul McCartney ...pom pom pom...pom pom pom...pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom pom ...we all stand together...depois de 2 ou 3 voltas na casa você já está adormecida, exalando a aura de tranqüilidade e de paz que o mundo precisa. É o momento mais lindo do mundo... seu suspiro indicando a mais profunda sonolência. Te coloco no seu bercinho, fecho seu véu e vou aguardar com a mamãe que a luz dos postes adormecidos se apaguem e que você acenda no novo dia de amanhã.

